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Terça-feira, Abril 08, 2008
Carta de Anne-Marie (1985-2008)
De um travesseiro de pedra, vejo estrelas apagadas. Em verdade, já o estavam bem antes, mas o brilho permanecia visível, protegido por milhares de anos-luz percorridos. Que faz a distância completada senão aproximar-nos da linha de chegada, a partir da qual o cronômetro pára, as pernas encaimbrecidas travam e já não há mais competidores? Muitos andam, alguns correm; mas quem se atreve a voar em tempos catastróficos, ao sentir qualquer turbulência, vê o chão chegar rente e o sonho de Dumont apagar-se numa manchete de jornal.
- A catástrofe vem de dentro, dizia ele. “É vulcão, terremoto, e não tem nada a ver com o clima.” A mim, mais parece climatério. Resto envelhecida, desprovida de toda feminilidade, e sem doçura de avó.
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Sexta-feira, Janeiro 11, 2008
Estupro consentido: o mundo de Juan David
Nem a agilidade dos guepardos da Etiópia, nem o apetite da sucuri do Pantanal, nem a altivez da águia americana, nem a resistência dos camelos de Omã. Não há retrato melhor da humanidade que o ilusionismo da turpial de Santo Domingo. Bela ave, penugem colorida, canto agradabilíssimo - faz a maioria esquecer, por vezes, que devora ovos e filhotes de passarinho.
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Sexta-feira, Abril 20, 2007
A minha canção do exílio
Quanto mais próximo estou do centro da Terra, mais percebo que a gravidade, em vez de a ele me atrair, como sugeriu algum dos velhos sábios (reza a lenda inspirado por uma maçã podre, o que não me admira nenhum pouco), repele-me abruptamente a outros caminhos, conducentes a alturas remotas, galáxias distantes onde as leis da física sejam outras. Não peço que concordes com a minha gravidade, talvez a tenha forjado; porque de lei, sistema e segurança, eu careço sim, mas não dessas daqui.
Para onde eles vão (todos os dias, que a pressão atmosférica os curva e apequena), está uma infernal temperatura, um caldeirão de mesquinharia tão insuportável, que por vezes explode em cólera e resolve chorar de tristeza, transpirar de susto ou golfar o que há muito estava engasgado: a pequenez da natureza humana. Manda a boa prudência que não nos deixemos enganar por um extinto Vesúvio ao fundo da linda Baía de Nápoles. A beleza da Costa Malfitana não pode esconder, com seus cenários encantadores, o que sempre foi, muito antes dos romanos, uma terra de homens vis e ladrões.
Outro dia, ao subir o Everest, o ar arrefecendo-se só me dava uma certeza: antes morrer jovem, bem próximo ao céu, que velho, cego e de bengala na casa de repouso dos salteadores.
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Domingo, Dezembro 03, 2006
Ainda pensando num título...
Não te vejo, mas sei que estás aí. Quem sabe no fundo do bolso, num pedaço de papel amassado no fundo da gaveta; ou ainda num enfarte fulminante na véspera do Natal. Nasci cego. Não por não notar tua estonteante beleza, perceptível por qualquer dos sentidos, mas sim que não consigo projetar-te, plenitude, no coração de qualquer desses homens perdidos. Quando olham para trás, só vêem ruínas; quando para o lado, não viram o pescoço, quanto mais o tronco -logo revelam-se invidiosos. E só olham para frente diante de um espelho.
Mas sinto-te mesmo assim. E tu fazes com que não queira mais viver a vida deles (vida essa que, por um simples olhar de relance, parece não pertencer a qualquer um). Mas aonde me levas, tu que me comandas? Calma, segura a resposta: quando enfim lá chegarmos, teremos a eternidade do fundeio; ainda que nas ruínas do sonho de outrora.
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Domingo, Agosto 20, 2006
A vida ao revés
Acordei curvado, voz rouca, cabelos brancos, dentes amarelados. Tinha dois filhos e quatros netos, dois deles homens formados, um desdoutorando em Letras e o outro festejado advogado. Eu ainda tinha setenta e oito anos pela frente (hoje aprendi a contar ao contrário).
Nas primeiras duas décadas, eram grandes e felizes reuniões de família. Triste era pensar que um a um deles desapareceria antes de mim. Os bebês, tão ternos que nem gosto de lembrar, quase já não mais lá.
Aos poucos, fui recuperando o vigor sexual. Pena que Freud não se aplicava ao meu mundo. O instinto sexual, instrumento de preservação da espécie cronologicamente inversa, em nosso caso, a despeito do prazer, só levaria à extinção dos seres amados.
As rugas atenuando-se, o viço batendo à porta, o cabelo começando a crescer e escurecer. Como era bom desfazer as escolhas! Abrir, todos os dias, leques de oportunidade. Ironicamente, desatar nós era também afrouxar as velas. Perder o vento e o rumo recebidos já prontos, em busca da inocência completa. Idéia tão tentadora quanto atordoante. De qualquer jeito, inescapável.
No meu mundo, o passamento, em vez de amenizar a crueza da realidade vivida, tinha papel oposto. Foi assim que descobri, de sopetão, ao ir deixá-lo num orfanato, que um de meus filhos era adotivo. E logo o mais amado, não poderia acompanhá-lo na primeira infância...
Descasei, e veio o fulgor da juventude. O namoro, a paixão ardente, a incerteza do amor da minha menina. E o que mais apertava meu coração: a certeza de que o dia em que ela desapareceria se aproximava. Ao menos, o valor que eu a ela atribuía também ia diminuindo com a desconstrução da memória, como a preparar-me para o primeiro olhar que cruzamos, a partir do qual eu nunca mais tornaria a vê-la.
Já meus pais chegaram meio do nada, assim, através de um acidente de carro. Grata surpresa. Ao menos ganhava o porto-seguro da primeira família, que talvez compensaria tantas perdas.
A infância e os desestudos já raiavam no horizonte: a vida a ficar cada vez mais divertida, mais tempo dedicado à brincadeira e menos preocupação com o passado. É verdade que ter hora pra dormir às vezes me chateava.
Desaprendi, divertidamente, a escrever, falar e andar. Aproximava-se o desfecho da minha ópera, o dia em que, tal Édipo, entraria no ventre da minha mãe e tornar-me-ia rei coroado pelo desaparecimento da concepção.
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Segunda-feira, Agosto 07, 2006
Solilóquio transcendental (a Aires, in memoriam)
- E aí, parceiro, aonde estamos indo?
- Você eu não sei; eu vou descer no ponto do parque, se não pegar no sono no caminho e perder a hora, é claro.
- Não deixaria isso acontecer.
- Mas, afinal, quem é você?
- E isso acaso importa ? Estamos num ônibus, não teremos tempo de construir sólida amizade. E esse parque é ali na esquina.
- É verdade.
...
- Que dia bonito, não?
- É sim, mas já chegou minha hora de descer... E você, amigo, continuará aí por muito tempo?
- Não sei. O ônibus é circular.
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Sexta-feira, Junho 23, 2006
Eterna juventude
Sonhos são pó - alguém um dia lhe disse, e ele cheirou-os de uma só vez.
Se o sucesso é inebriante, se havia que sorvê-lo o mais depressa possível, na esperança de mergulhar em torpor antes de seus efeitos colaterais sabidos: barriga, careca, impotência, pensão alimentícia! Ah, carreira que é carreira, ah, essa se cheira inteira, sem titubear.
A mulher da sua vida? A que voando se foi ou a que ficou, no porto, acenando, pra trás? Bem, agora já tanto faz, depois de forte inalada, ali já não havia nada. Para o bem da verdade, lembre-se que foi terna a cheirada, daquelas apaixonadas... mas cheiro se perde no ar!
Pra conhecer o mundo, é fato notório e inquestionável que se tem de viajar. Inalou, primeiro, as pirâmides do Egito (nada mais empoeirado...), depois a Acrópole (nada mais branquinho!), em seguida Manhattan (nada mais viciante). Com três tapinhas colocou pra dentro o apogeu da religião, da filosofia e da ignorância, misturadas tal sal e areia.
Por último, a paz espiritual. Como e onde cheirá-la? Depois de muito farejar, nesses dias corridos e irracionais, não encontrou nem sinal dela no ar. Teria ele que injetá-la? Nem precisava. Depois de 75 gramas de oásis, a febre, que há muito já havia tomado conta de seu corpo pequenino, extenuou-o: no chão caiu desvanecido.
E ficou a lição para a alma: overdose - e só, é o que acalma.
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Sábado, Maio 20, 2006
Da pedofilia
Dormi com a infância e acordei com a liberdade. Em outros tempos, diria que foi o contrário. Afinal, que menino passaria incólume, sem ter de dar entrevistas de rosto embaçado e voz distorcida e chorosa, ao ser privado, de um só golpe, de sua intimidade e ingenuidade? É verdade que na vigésima quinta vez não poderia bem ter sido isso o ocorrido, a despeito da obviedade do despudor. Foi assim que, nessa minha primeira vez (permita-me contar com meus dedos) e vigésima sei-lá-quantas (para o expert), a violência me libertou.
Acordei livre dos arquivos, malotes e prazos que a vida racional bem traduz. Se bem que a curiosidade, ávida por aprender, nunca haja me abandonado, a impossibilidade de absorver o unreasonable capaz de superar as limitações cognitivas kantianas, único conhecimento de verdade (justamente por não ser conhecimento), isso sim me afastou dos meus dias de moleque.
A liberdade, no entanto, tornou-se pesada pela manhã. E agora, o que faz um menino de três anos, de olhos brilhantes e arregalados, num escritório de advocacia? Que quer ele ao juntar tantos livros sem nada para colorir? Porque chegaste logo agora com essa caixa de lápis-de-cor (e acaso não era exatamente isso que eu queria?)?. Olhos febris, dia demorado para passar, e a velha dor na nuca. Sintomas de amor ou de tristeza?
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Quarta-feira, Março 22, 2006
O que escreves com minhas mãos
Faz tempo que não escrevo. Porque diabos fui reler o remoto último texto, como que a buscar uma continuidade que há muito já não me habita o peito? Sim, o outono morno rapidamente se transformou em gélido inverno, mas não falarei disso hoje, pois sei que já estás cansada do meu recorrente canto de solidão. Tampouco buscarei difíceis palavras, que sei que já não suportas mais tanta verborragia. Hoje vim para celebrar a saudade que sinto de ti, não da que não encontro há tempos, senão da que ainda hei de encontrar, decerto após qualquer ventania, de manhã numa mesa de bar. Hoje acordei querendo escalar aquela montanha e montar nossa tenda e fogueira, bem no alto, sob a lua-cheia. Não aqui nesta terra onde a lua está sempre crescendo ou minguando, mas sim no reino da infinitude, onde toda lua é cheia e nova ao mesmo tempo. É lá que quero fazer nossos filhos, pois é lá que eles também serão nossos pais.
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Quinta-feira, Janeiro 26, 2006
Distintos alfabetos
Entre estas cobertas, só não suava pelos poros. O sobe-e-desce, cada vez mais abrupto, não elevava nem rebaixava minhas aspirações, apenas as deixava mais longe de mim. E se me punha mais distante de casa, foi quando mais próximo de lá já estive. Em verdade, agora tenho muitos lares, e só um de mim. Quem pensa no prazer de chegar a diferentes portos e sentir-se como parte daquelas terras, não pensa na dor de tantas partidas. Nunca te sentiste como se tua cabeça estivesse repleta de lixo, e faltasse espaço para as sutilezas da vida? E eu que pensava que tudo era infinito... Ou ainda penso, vai saber, mas entre o pensar e o sentir, há um traiçoeiro Adriático, palco de tantas batalhas sangrentas.
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Sábado, Dezembro 03, 2005
Do funâmbulo para ti
Daqui te vejo com teus malabares, bailarina fazendo ponta na corda-bamba, fixos olhos que nada pode desviá-los, unhas quebradiças de tanta acrobacia. Porque insistes em saltar de trapézio em trapézio, tendo esta imensa rede protetora a te esperar? Bem sei que não és dada a quedas, mas com tantos abismos circenses, só não cai mesmo quem mergulhar. Busco uma alternativa entre a solidão do artista e a sazonalidade da platéia, isso porque se não quero participar de mais uma de tuas peripécias, também não me agradará a simples lembrança de ti numa tarde de domingo. A caravana parte sem levar o pipoqueiro -dir-me-ás risonha que só. Algodão-doce, doce menina do picadeiro, queres me fazer rir e tudo que consegues é que meu coração bata depressa assim. Se fosses musa de cinema, podias de fato te orgulhar, mas como palhaça terás que enxugar lágrimas de fracasso, antes que te borrem a maquiagem. Pois, se para eles és a diversão da garotada, para mim és a lágrima oculta do comediante.
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Sexta-feira, Outubro 14, 2005
Rubinho pedala, pedala, Robinho!
Em meio ao materialismo americano, ao lúgubre ar britânico de ex-primeiro-lugar e aos retirantes do resto da Europa, que faço eu aqui? Ainda que houvesse argentinos neste lugar , talvez a estreita amizade assentada pela Guerra do Paraguai fosse facilmente apagada pelas garras do domínio econômico brasileiro ou, o que é muito mais importante e provável, pela rivalidade do futebol. Uma possível solução seria, como nosso Lula antes da "urucubaca", alinhar-me com os chineses, potência em ascensão. Mais adiante, para fechar o círculo dos B.R.I.C's, poderia buscar aliados na Índia e na Rússia, inspirado pela famosa máxima "All men are brothers" de Mahatma Ghandi ou na santíssima trindade, digo, Lenin, Stalin e Trotsky, que foram verdadeiros companheiros entre si. Assim, finalmente poderíamos preparar a invasão de algo um pouco maior que o Santiago Bernabeu e, aos brados, entoar nosso hino: "tá dominado, tá tudo dominado", saltando de cipó em cipó. Nesse mundo perfeito, ainda que a alguns governantes possa faltar um dedo, ninguém será privado do dedão. Só dessa forma far-se-á a justiça social: todos, sem distinção de cor, credo, sexo ou condição econômica, poderão usar havaianas.
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Terça-feira, Outubro 11, 2005
10/10/05
A gênese da solidão
Foi mais ou menos assim: deram-me de comer de um tal fruto e, em instantâneo deleite, provei, como Adão, da árvore do discernimento do bem e do mal, e pela primeira vez vergonha senti. Se ao menos eu tivesse uma Eva... Eu vi a verdade de Adão.
Em seguida, em instantânea mudança, começou a chover (como já era de se esperar). Ao ver o dilúvio pela janela, logo percebi: a vida é uma arca, tudo chove lá fora, e do lado de dentro só podes guardar alguns. Da verdade não brotou o bíblico arco-íris (aquele que aparece no céu sempre que Deus ali junta nuvens, com o intuito de lembrá-lo da aliança feita com Noé, o único então justo, que estabelecia que nunca mais exterminaria a humanidade com Suas torrentes). Mas e agora, cadê a justeza, Noé !? Eu vi a verdade de Noé.
Aí, num demorado segundo, que em verdade demorou mais ou menos cento e setenta e cinco anos, deram-me o filho que eu não podia ter. Eu vi a verdade de Abraão.
Ainda sem Eva, vi, no entanto, minha morena olhar para trás e virar uma estátua de sal. Sem prejuízo da costela tirada e do filho concedido, ao deitar-me com minha própria cria percebi o quanto estava sozinho neste mundo, e uma lágrima, única que só, escorreu. Eu vi a verdade de Ló.
Para trás não olhei, mas sim para o lado. Ocupei-me mais com o meu irmão do que deveria. Em vão competi. Foi aí que esqueci o quanto estava sozinho neste mundo. Através de Esaú, eu vi a mentira de Jacó. Mas de pronto acordei, vi Deus de frente e, a despeito, sobrevivi. Foi aí que me tornei Israel, pois vi Deus face-a-face e sobrevivi. Eu também vi a verdade de Jacó.
Vendo de frente Seu semblante, antecipei sete anos de fome, e pude me preparar. Sozinho, meu reino era o único que ainda possuía mantimentos, e todos nele os vinham comprar. Enchi-me de vil metal, para quê? Logo tornei-me escravo. Eu vi a verdade de José.
E, agora, cadê você com sua verdade, Moisés? Cadê você, liberdade!? - essa verdade, ainda não vi...
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Segunda-feira, Outubro 03, 2005
Marx morreu, e está enterrado a dois quarteirões.
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23/09/05
Carta a alguém sufocado pelo aquecedor dentro de um cubículo londrino
(ou Porque você é/sou eu)
Passados o velho e o moço, estava eu sobrevoando Paris. Bem acima das nuvens, já amanhecia. Enfim poderia abrir o jornal, eu que não havia dormido. Tudo, em minha vida, sempre aponta para um desfecho trágico, que quase nunca se verifica. Para ilustrar, a manchete principal do Le Figaro de dezesseis de setembro versava sobre um acidente aéreo em Toronto. As linhas subseqüentes explicavam a desavença entre o co-piloto, que queria levantar o trem-de-pouso e decolar novamente após a aterrissagem imperfeita, e o piloto, que acabou optando, ao contrário, por ligar o reverse. Resultado: pista pequena demais para a manobra, centenas de mortos, os dois inclusive. Li a reportagem exatamente durante minha aterragem. Mas, against all odds, suavemente desci no Charles de Gaulle, como a garantir-me que sempre que eu tentar adivinhar o futuro, devo recordar-me que uma kilt cai-me bem melhor que uma saia rodada de Mãe Diná.
No meu mundo agora sem MSN, passei a ler outras coisas. Se bem que os livros não supram minha sempre presente carência de pessoas, tenho lido algumas coisas interessantes. Os paradoxos sempre me intrigaram, tanto que dei ao blog o nome que dei. Há algum tempo, esbocei uma idéia de que os opostos seriam, em verdade, idênticos. Algumas alegorias; como a luz intensa que ofusca; a densidade infinita (ausência de espaço entre as partículas) e o vácuo absoluto ( espaço infinito entre as mesmas), que na verdade parecem equivaler-se; servem para aludir à idéia central de identidade entre os extremos. Assim, ao ler os seguintes trechos, um sorriso irônico entreaberto uniu-se aos olhos pasmos de criança:
" Opondo-se à lógica aristotélica está a que podemos chamar de lógica paradoxal, que considera que A e não-A não se excluem mutuamente como predicados de X. A lógica paradoxal predominava no pensamento chinês e indiano, na filosofia de Heráclito e, posteriormente, com o nome de dialética, tornou-se a filosofia de Hegel e Marx. O princípio geral da lógica paradoxal foi claramente enunciado por Lao-tsé: ´As palavras que são estritamente verdadeiras parecem ser paradoxais` ... Para Mestre Eckhart, ´o Um Divino é a negação das negações, e uma negativa das negativas... Toda criatura contém uma negação: um nega que é o outro`. Para ele, é tão-só uma conseqüencia Deus tornar-se o ´Nada Absoluto`, da mesma forma que a realidade essencial é o En Sof (Sem Fim) da Cabala. " (1)
Para Fromm, o amor a Deus, quando maduro, representaria a sensação de unidade com Ele, um estágio mais avançado do que a concepção de um deus-pai (o que cria regras, cobra, e pune) ou de uma deusa-mãe (a que me protege e me ama incondicionalmente, apesar da minha fraqueza).
Penso que a idéia de Amor e de Deus equiparam-se, na medida em que o Amor, enquanto experiência de união com o outro, corresponde a reconhecer que o outro é Deus, assim como eu mesmo. Em verdade, tanto Deus quanto o Amor significam transcendência, isto é, a superação da linha limítrofe que parece - e somente parece - existir entre o subjetivo e o objetivo; opostos, em verdade, idênticos.
(1) A arte de amar - Erich Fromm.
25/09/05
Domingo. Resumo do meu dia: liguei para casa, fui à Speaker's Corner, respondi a alguns e-mails e li um pouco do Walker & Walker's English Legal System. Na "Esquina dos Oradores", um canto do Hyde Park onde se celebra desde 1872 a liberdade de expressão, assisti aos discursos dos mesmos palestino e jamacaino de um ano atrás. O nigeriano questionador, que defendia a causa americana, também era o mesmíssimo. Até algumas piadas repetiram-se, fora o que me faltou à memória. É incrível como um discurso pode nos deixar estupefaticamente bem-impressionados ao primeiro contato e, na segunda vez em que o escutamos, soar extremamente artificial. Eu, inclusive, sinto-me por vezes repetitivo... Ao menos, isso não ocorre com o CD dos Los Hermanos.
01/10/05
Hangover
Chegou outubro, mas foi agosto o mês das bruxas. De frente para o espelho, a estação muda rapidamente. Já é outono, e as folhas mudam de cor. Não que o Big Ben dite meu ritmo, mas os passos são bem mais largos pelo underground. A educação também é desconstruída - spoilt..., ela me sussurrou.
A insônia resolve-se com duas latas de Stella, mas a solidão não. Faceira, nega todas as outras, e faltam-me palavras para agradecer-lhe por isso. Certo amigo disse-me, uma vez, que era ilusão, e que o "outro" sempre seria melhor. Mas aqui não é isso que ocorre. O alarme de incêndio sobre minha cabeça é insensível ao cheiro bucólico que paira no ar. De todo modo, a garoa que insiste em aparecer todos os dias nesta cidade apagaria qualquer espécie de chama, não há porquê para alarmes. Aí sim, eu faria um desejo, próprio do sopro à vela. O santo não há de ficar descontente pelo simples apagar, pois bem sabe que a oferenda é muito mais grandiosa. Assim, de olhos fechados, com máxima força, ao extinguir-se a chama da vida, desejarei um pouco de paz. Aí, finalmente, desejo e realização não mais distinguir-se-ão, sonho e matéria unos no último pensamento, eu e você finalmente seremos, sem ser, nós.
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